Fátima Guedes

Rio de Janeiro-RJ, 6/5/1958


Por: Adalberto Carvalho Pinto


Fátima GuedesA partir do final dos anos 70, o Brasil passava por momento de dificuldade no campo político e, ao mesmo tempo, uma esperança começava a se desenhar, quando desembarcavam no país os exilados do Regime. Nesse período, a tradição de compositoras femininas, como Sueli Costa, Joyce, Ângela Rô Rô e Rita Lee, parecia tomar uma forma definitiva.

O ano de 1978 foi especialmente marcante para Fátima Guedes, uma compositora com apenas 18 anos e com uma extraordinária criatividade nas letras e melodias que compunha. Naquele ano, no show "Transversal do Tempo", Elis Regina interpretava, de sua autoria, "Meninas da Cidade". Foi também, em 1978, que Elis a apresentava oficialmente ao grande público, em um especial para a televisão.

Com a determinação que lhe é peculiar, entrava na porta da Odeon e gravava seu primeiro disco em 1979. A marca era o bolero "Passional" ("...Veja meu caro / nosso amor não foi nada de raro / teve um magro final / o fim de toda a trama / que começa na cama / e termina metade carnal..."), vencedora de um festival estudantil do Colégio Hélio Alonso, dois anos antes, quando já possuía relativo domínio do violão. No júri, Hermínio Bello de Carvalho, Paulo César Pinheiro e o crítico musical Roberto Moura.

No ano seguinte, a compositora concorreu no Festival MPB-Shell, com "Mais Uma Boca", uma crônica social que lhe garantiu o prêmio de melhor intérprete da 2ª eliminatória ("Quem de vocês se chama João / eu vim avisar / a mulher dele deu à luz / sozinha no barracão...e teve seu filho sozinha sem chorar / porque a dor maior o futuro é quem vai dar...")

Com uma senso inventivo fora do comum, em 1985 Fátima Guedes ousou realizar um disco temático, fora dos padrões ditos normais: amante do cinema, desta vez foi buscar inspiração em antigos filmes, para criar "Sétima Arte". Chamou Elifas Andreato para compor a parte gráfica. No encarte, montagens com cenas dos filmes, colocando a compositora em primeiro plano, como a protagonista das estórias.

Depois de um jejum involuntário de três anos, Fátima retornou ao disco em 1988, com "Coração de Louca", um dos trabalhos pioneiros do selo Velas (Ivan Lins – Vitor Martins) que sequer existia como gravadora. O disco traz novamente a marca inconfundível de Elifas Andreato ao tratamento gráfico outrora conferido aos LP’s "Fátima Guedes", "Lápis de Cor" e "Sétima Arte". A inovação no repertório, desta vez, ficou por conta de "O Rouxinol e a Rosa", uma terna e inspirada composição de sua autoria, transformada em comovente dueto com Ivan Lins.

Se os quatro primeiros trabalhos foram marcados essencialmente por composições somente suas, a partir de "Coração de Louca", percebe-se uma Fátima Guedes mais intérprete. É o que vemos em "Prá Bom Entendedor", com faixa título de Guinga, um de seus compositores preferidos e cada vez mais gravados - "Quintino Bocaiúva" e "Sete Estrelas", por exemplo, duas faixas desse disco. Em "Grande Tempo", seu trabalho de 1995, descobre o ótimo samba de Lenine "O Dia Em Que Faremos Contato" e chama o Arranco de Varsóvia para dividir os vocais – talvez o primeiro registro do grupo em disco.

Em "Muito Intensa", com parcerias inéditas com Ney Lopes, Djavan, Joyce, Adriana Calcanhoto e Ivan Lins, Fátima Guedes confirma seu nome na história da música popular brasileira, mostrando seu talento de compositora-intéprete. É, sem dúvida, a melhor intérprete de suas canções.

 

Para conhecer melhor Fátima Guedes:

 

MúsicaBrasileira.org | | Resenhas & Entrevistas | | Quem Somos