Marimbanda
Tente Descobrir
Letra & Música LM13 (2005)
Tempo: 60'12"

 

Suave Descoberta

 

Resenha por
Setembro 2005

Tente Descobrir
Faixas:

Todas as faixas por Luizinho Duarte exceto onde indicada.

  1. De Frente ao Baião
  2. Babi (Ítalo Almeida)
  3. Tente Descobrir
  4. Pra Te Dizer Algo Assim
  5. Maracangalha (Dorival Caymmi)
  6. Que Nem Jiló (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
  7. Manhã
  8. Frevo Agoniado (Ítalo Almeida)
  9. Oversea
  10. Momento Difícil
  11. Choro na Chuva
  12. Panorâmica (Ítalo Almeida)
  13. Frevo na Sopa

Meu vôo chegou em Fortaleza às 19:05 horas. Tentando manter a calma, eu falei com os familiares no aeroporto e procedemos para casa. Não parava de pensar na hora. Deixei as malas em casa, dei um alô para mais alguns parentes e pedi desculpas para sair. Sabia que teria muito tempo para a família depois. Eles teriam toda a minha atenção por 2 semanas, mas aquela noite já estava programada há muito tempo. Era a noite do show de lançamento do novo trabalho da Marimbanda no Centro Cultural Dragão do Mar em Fortaleza. Ainda bem que conheço bem as ruas da minha cidade natal. Cheguei ao Dragão do Mar exatamente às 20 horas!

Trata-se de uma tarefa árdua tentar expressar com palavras o que é ver a Marimbanda ao vivo. O que vi e ouvi naquela noite deixou a mim e ao público presente num estado de êxtase sonoro. Eu já gostava da Marimbanda desde o primeiro cd, e agora a antecipação deste segundo trabalho estava bem alta. A Marimbanda deixou o público pasmo com Tente Descobrir!

O grupo agora conta com o baixista e violonista Miquéias dos Santos em vez de Jr. Primata da formação do primeiro cd. Para começar este show, Marimbanda abriu com a mesma faixa do cd, "De Frente ao Baião". Luizinho Duarte (bateria, violão, percussão) não parou de animar a platéia um só momento, mesmo que o tempo naquela noite estivesse com cara de chuva. Também fazendo as honras da casa com Luizinho, Heriberto Porto (flautas) deixou transparecer que seu instrumento parecia mesmo ser uma extensão natural dos seus lábios. Ítalo Almeida (piano, acordeon) também marcou presença imediata já no primeiro número da noite. A impressão era de que o grupo iria tocar todas as faixas do novo trabalho. A influência da bossa nova em "Babi" deu continuidade a este programa excitante. Assinando três faixas do álbum, Ítalo estava muito à vontade quer fosse ao piano ou acordeon. Mesmo depois de uma pequena chuva, a platéia não desistia. Assim sendo, para melhor dar uma idéia da música contida em Tente Descobrir, aqui vai uma análise de cada faixa nas palavras do próprios membros da Marimbanda. Eu conversei um pouco com a Marimbanda depois do show e em seguida com o Heriberto por email sobre Tente Descobrir. Agora chega a sua vez de descobrir este novo grande lançamento.

O que você pode nos dizer sobre "De Frente ao Baião"? Parece mesmo ser uma música perfeita para abrir um trabalho ou concerto. Vocês abrem o cd com força viva usando pífanos.

A música foi composta em homenagem ao baixista Jr. Costa (ex-Marimbanda, por nós chamado de "Frente") que adorava um baião de dois depois dos ensaios. É uma verdadeira abertura, feliz, ligeira, em ré maior. A introdução é uma marcha de chegada nos modos da banda cabaçal dos irmãos Anicete, que é uma banda cabaçal, ou de pífaros, da cidade do Crato, existente há mais de cem anos. Pífaros, zabumba, triangulo, e caixa é a formação tradicional do grupo que é encontrado em várias partes do nordeste, como em Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Paraíba e Ceará.

Bom, e indo então para um samba macio, ouvimos então "Babi".

Trata-se de um samba que o Ítalo Almeida fez para sua esposa Babi.  Bem no estilo do samba carioca, com muita marcação - definição do baixo e da bateria. No final adicionamos cordas e várias flautas fazendo uma textura bem cheia e gostosa.

A faixa "Tente Descobrir" tem uma introdução diferente. No show, vocês pediram ao público para fazer uma pequena algazarra. Aliás o pedido foi muito fácil de ser atendido com aquela platéia. O som caribenho está obviamente presente nesta faixa. Por favor, nos fale sobre isso.

Composta em 2000, na onda dos festejos dos  quinhentos anos do "descobrimento" Brasil, "Tente Descobrir" nos remete ao nosso lado nordestino-caribenho-africano. Na introdução criamos no estúdio uma verdadeira feira, o som de muitas vozes entremeladas, polifonia urbana, feira de Tombuctu ou de Parangaba. Tente descobrir , um recado para portugueses, europeus e brasileiros, de um Brasil mal descoberto ou se preferirmos, incitação a descobrirmos melhor tantos ritmos, danças, manifestações musicais tão pouco valorizadas.

Luizinho Duarte & Lu BasileE sobre esta faixa "Pra Te Dizer Algo Assim"? Que tranqüilidade de música!

Trata-se de uma carta sem palavras do Luizinho para Lu Basile. É uma bossa, suave bossa-nova. O tema na flauta em sol e os solos de piano e baixo valorizam esta suavidade.

 

Bom, não sei quantas pessoas tocam um novo cd sem nem ler o encarte ou ver a relação das faixas. Eu gosto de fazer isso. Geralmente eu me presenteio surpresas inesperadas dessa maneira. Devo confessar que a introdução de "Maracangalha" me apanhou de surpresa mesmo. Eu já sabia que vocês tinham gravada essa música, mas não tinha a menor idéia do que esperar.

Esta foi para o Dorival, nos seus noventa anos, uma versão animada do famoso samba. O arranjo original foi trazido pelo Luizinho e nós como sempre demos nossa contribuição. Segundo o Luizinho este grande sucesso já colava nos ouvidos dele quando ele ainda tinha quatro anos de idade e ele cantarolava a melodia. A idéia então foi tocar um samba rápido, estilo um pouco esquecido dentre os músicos e bateras, como fizemos na música "Marimbanda" do Giffoni no primeiro CD. A introdução é do Luizinho com uma passagem em três tempos. A idéia de por o piano fazendo o ritmo no meio do tema foi minha. A gente também exagera na "dinâmica" descendo o som até um pianíssimo e subindo em crescendo até o forte , o que dá muita variedade ao arranjo.

Além dessa faixa, só temos um outro número que não foi composto pela Marimbanda. Refiro-me a "Que Nem Jiló". Como vocês fizeram com "Pisa na Fulô", aqui a Marimbanda coloca sua marca neste baião clássico.

O clássico da mais famosa dupla do nordeste é aqui por nós revisitado. Na introdução outra vez os "terno de pífaros", este suingue do baião com flautas em terças, zabumba, triangulo, sanfona. A melodia é delicadeza pura e eu tive até medo pela responsabilidade que é gravar "Que Nem Jiló". Depois do tema fazemos solos livres Miquéias, Ítalo e eu num ambiente Hermetano.

Beleza pura. Outro detalhe que não está no álbum mas apareceu no show foi o solo do Luizinho com a platéia. Ele conseguiu mesmo fazer com que o público batesse as mãos em coordenação carismática e perfeita com o solo dele. Foi um grande momento!

Temos a seguir a faixa "Manhã", que para mim é uma das mais belas melodias que ouvi recentemente. O tema fica na sua cabeça sem parar.

Tivemos a participação muito especial do clarinetista Carlinhos Ferreira, que com muita categoria se uniu a flauta em sol na melodia e fez um solo que é viagem pura, no bom sentido, muito feeling e sentimento. "Manhã" é uma nova balada do Luizinho e já tem candidatos a letrista do que virá a ser canção. "Manhã" quase fica fora do cd, mesmo depois de gravada, tanto o Luizinho queria um piano e um contrabaixo acústicos, mas como não tinhamos resolvemos deixá-la, com toda a razão, não é?

E nós, os ouvintes, só tivemos a ganhar com isso. Belíssima música! Agora fala um pouco do "Frevo Agoniado". Como é possível de se ter um frevo tão frenético assim?

Um frevo diferente do Ítalo, ligeiro que nem alegria de pobre, que passa por uma calmaria no meio. Foi composto como um tipo de desafio do Ítalo para o Luiz, para ver como se saia com um andamento rápido desse. Gravada de um "lapada" só, valeu o desafio. Lembrei de uma das mil histórias do Luizinho Duarte: "Estão pedindo marcha rancho! Gritava o tocador de surdo no baile de carnaval do Clube do Náutico depois de 3 horas de bum-bum! Braço já dormente de tanta marcha, o povo a mil pulos, imaginamos a surpresa do baterista ao ouvir o tocador de surdo: "Estão pedindo marcha rancho?"

E sobre este samba "Oversea"?

É um samba partido alto composto no final do século passado. Pertence à primeira fase de composições do Luizinho. Flauta e piano dobram a melodia enquanto baixo e bateria são puro suingue de samba no acompanhamento.

E voltamos então a outra balada: "Momento Difícil".

Dos momentos difíceis, diz o poeta, surgem as coisas mais belas, como esta balada do Luizinho. Lirismo, dinâmica e delicadeza são o forte desta música. O piano anuncia em poucas notas o ambiente e começa sozinho a expor o tema, depois entram baixo e bateria e por fim a flauta, triste, passarinho de asa quebrada quer voar, e voa.

MarimbandaAgora lembro que durante o concerto, tivemos uma pequena chuva. Foi então mais do que apropriado que a Marimbanda acolhesse a chuva daquela noite com "Choro na Chuva". Foi aí que tivemos a oportunidade de ver a Marimbanda em formação diferente.

A primeira parte do choro (Si menor) estava sendo concluída quando a mulher gritou: "Luizinho, os pães"! Estava chovendo, mesmo assim encarou a chuva e foi à padaria. Na ida concluiu o "B" (Fá maior), e na volta a parte "C" (Ré maior). No disco o autor toca violão de 7 cordas, tamborim, pandeiro e bateria. (Maravilhas da tecnologia.) É bom ver um choro suingado com baixo e bateria apesar da dificuldade de mixar baixo e sete cordas, para não "embolar".

E o resultado final foi ótimo. No show ao vivo, a apresentação foi tão boa quanto a do estúdio, só que o Luizinho tocou apenas pandeiro.

Também ouvi falar sobre a inspiração de "Panorâmica", esta balada muito bonita do Ítalo Almeida. Conta pra gente a estória.

A faixa foi escrita em memória do Tio Ivan do Ítalo. Final de tarde, descendo a serra de Guaramiranga, a lembrança do tio e a inspiração nos trouxeram esta "panorâmica". É uma das grandes músicas do cd. A descobrimos durante as gravações, o que acentua a alegria de gravar um tema tão lindo. Antes do tema fiz um monte de efeitos com as flautas: percussões com as chaves, percussões com a língua, whispertones, harmônicos, num clima de música contemporânea. O Ítalo toca piano e acordeon.

E chegamos assim ao final do cd, com a energia do "Frevo na Sopa".

Como no "Choro na Chuva", ao compor esta música, o grito cotidiano: "Luizinho vem tomar tua sopa". O jeito foi terminar este frevo entre uma colherada e outra.

Heriberto, obrigado por conversar com os leitores de MB sobre este excelente trabalho. Aí está Tente Descobrir. Você ainda pode ver fotos do show aqui.

MB E.L.