| Faixas: |
Todas as faixas por Luizinho
Duarte exceto onde indicada.
- De Frente ao Baião
- Babi (Ítalo Almeida)
- Tente Descobrir
- Pra Te Dizer Algo Assim
- Maracangalha (Dorival Caymmi)
- Que Nem Jiló (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
- Manhã
- Frevo Agoniado (Ítalo Almeida)
- Oversea
- Momento Difícil
- Choro na Chuva
- Panorâmica (Ítalo Almeida)
- Frevo na Sopa
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Meu vôo chegou em Fortaleza às 19:05 horas. Tentando manter a calma,
eu falei com os familiares no aeroporto e procedemos para casa. Não parava
de pensar na hora. Deixei as malas em casa, dei um alô para mais alguns
parentes e pedi desculpas para sair. Sabia que teria muito tempo para
a família depois. Eles teriam toda a minha atenção por 2 semanas, mas
aquela noite já estava programada há muito tempo. Era a noite do show
de lançamento do novo trabalho da Marimbanda no Centro Cultural Dragão
do Mar em Fortaleza. Ainda bem que conheço bem as ruas da minha cidade
natal. Cheguei ao Dragão do Mar exatamente às 20 horas!
Trata-se de uma tarefa árdua tentar expressar com palavras o que é ver
a Marimbanda ao vivo. O que vi e ouvi naquela noite deixou a mim e ao
público presente num estado de êxtase sonoro. Eu já gostava da Marimbanda
desde o primeiro cd,
e agora a antecipação deste segundo trabalho estava bem alta. A Marimbanda
deixou o público pasmo com Tente Descobrir!
O grupo agora conta com o baixista e violonista
Miquéias dos Santos em vez de Jr. Primata da formação
do primeiro cd. Para começar este show, Marimbanda
abriu com a mesma faixa do cd, "De
Frente ao Baião". Luizinho
Duarte (bateria, violão, percussão) não parou de
animar a platéia um
só momento, mesmo que o tempo naquela noite estivesse com cara
de chuva. Também fazendo as honras da casa com Luizinho, Heriberto
Porto (flautas) deixou transparecer que seu instrumento parecia mesmo
ser uma extensão
natural dos seus lábios. Ítalo Almeida (piano, acordeon)
também marcou
presença imediata já no primeiro número da noite.
A impressão era de
que o grupo iria tocar todas as faixas do novo trabalho. A influência
da bossa nova em "Babi" deu continuidade a este programa excitante.
Assinando três faixas do álbum, Ítalo estava muito à vontade
quer fosse ao piano ou acordeon. Mesmo depois de uma pequena chuva, a
platéia não desistia.
Assim sendo, para melhor dar uma idéia da música contida
em Tente
Descobrir, aqui vai uma análise de cada faixa nas palavras
do próprios
membros da Marimbanda. Eu conversei um pouco com a Marimbanda depois do show e em seguida com o Heriberto por email
sobre Tente Descobrir. Agora chega a sua vez de descobrir este
novo grande lançamento.
O que você pode nos dizer sobre "De Frente ao Baião"?
Parece mesmo ser uma música perfeita para abrir um trabalho ou concerto.
Vocês abrem o cd com força viva usando pífanos.
A música foi composta em homenagem ao baixista Jr. Costa
(ex-Marimbanda, por nós
chamado de "Frente") que adorava um baião de dois
depois dos ensaios. É uma verdadeira abertura, feliz, ligeira,
em ré maior. A introdução é uma marcha
de chegada nos modos da banda cabaçal dos irmãos Anicete,
que é uma banda cabaçal, ou de pífaros, da cidade
do Crato, existente há mais de cem anos. Pífaros, zabumba,
triangulo, e caixa é a formação tradicional do
grupo que é encontrado em várias partes do nordeste,
como em Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Paraíba e Ceará.
Bom, e indo então para um samba macio, ouvimos então "Babi".
Trata-se de um samba que o Ítalo Almeida fez
para sua esposa Babi. Bem no estilo do samba carioca, com muita
marcação - definição do baixo e da bateria.
No final adicionamos cordas e várias flautas fazendo uma textura
bem cheia e gostosa.
A faixa "Tente Descobrir" tem uma introdução diferente. No
show, vocês pediram ao público para fazer uma pequena algazarra. Aliás
o pedido foi muito fácil de ser atendido com aquela platéia. O som caribenho
está obviamente presente nesta faixa. Por favor, nos fale sobre isso.
Composta em 2000, na onda dos festejos dos quinhentos anos
do "descobrimento" Brasil, "Tente Descobrir"
nos remete ao nosso lado nordestino-caribenho-africano. Na introdução
criamos no estúdio uma verdadeira feira, o som de muitas vozes
entremeladas, polifonia urbana, feira de Tombuctu ou de Parangaba.
Tente descobrir , um recado para portugueses, europeus e brasileiros,
de um Brasil mal descoberto ou se preferirmos, incitação
a descobrirmos melhor tantos ritmos, danças, manifestações
musicais tão pouco valorizadas.
E
sobre esta faixa "Pra Te Dizer
Algo Assim"? Que tranqüilidade de música!
Trata-se de uma carta sem palavras do Luizinho para Lu Basile. É uma
bossa, suave bossa-nova. O tema na flauta em sol e os solos de piano
e baixo valorizam esta suavidade.
Bom, não sei quantas pessoas tocam um novo cd sem nem ler o encarte
ou ver a relação das faixas. Eu gosto de fazer isso. Geralmente eu me
presenteio surpresas inesperadas dessa maneira. Devo confessar que a
introdução de "Maracangalha" me apanhou de surpresa mesmo. Eu já sabia
que vocês tinham gravada essa música, mas não tinha a menor idéia do
que esperar.
Esta foi para o Dorival, nos seus noventa anos, uma versão
animada do famoso samba. O arranjo original foi trazido pelo Luizinho
e nós
como sempre demos nossa contribuição. Segundo o Luizinho
este grande sucesso já colava nos ouvidos dele quando ele ainda
tinha quatro anos de idade e ele cantarolava a melodia. A idéia então foi
tocar um samba rápido, estilo um
pouco esquecido dentre os músicos e bateras, como fizemos na
música "Marimbanda" do Giffoni no primeiro CD. A introdução é do
Luizinho com uma passagem em três tempos. A idéia de por
o piano fazendo o ritmo no meio do tema foi minha. A gente também
exagera na "dinâmica" descendo o som até um
pianíssimo
e subindo em crescendo até o forte , o que dá muita variedade
ao arranjo.
Além dessa faixa, só temos um outro número que não foi composto pela
Marimbanda. Refiro-me a "Que Nem Jiló". Como vocês fizeram com "Pisa
na Fulô", aqui a Marimbanda coloca sua marca neste baião clássico.
O clássico da mais famosa dupla do nordeste é aqui por
nós
revisitado. Na introdução outra vez os "terno
de pífaros", este suingue do baião com flautas
em terças, zabumba, triangulo, sanfona. A melodia é delicadeza
pura e eu tive até medo pela responsabilidade que é gravar
"Que Nem Jiló". Depois do tema fazemos solos livres
Miquéias, Ítalo e eu num ambiente Hermetano.
Beleza pura. Outro detalhe que não está no álbum mas apareceu no show
foi o solo do Luizinho com a platéia. Ele conseguiu mesmo fazer com que
o público batesse as mãos em coordenação carismática e perfeita com o
solo dele. Foi um grande momento!
Temos a seguir a faixa "Manhã", que para mim é uma
das mais belas melodias que ouvi recentemente. O tema fica na sua cabeça
sem parar.
Tivemos a participação muito especial do clarinetista
Carlinhos Ferreira, que com muita categoria se uniu a flauta em sol
na melodia e fez um solo que é viagem pura, no bom sentido,
muito feeling e sentimento. "Manhã" é uma
nova balada do Luizinho e já tem candidatos a letrista do
que virá a
ser canção. "Manhã" quase fica fora do
cd, mesmo depois de gravada, tanto o Luizinho queria um piano e um contrabaixo
acústicos,
mas como não tinhamos resolvemos deixá-la, com toda a razão,
não é?
E nós, os ouvintes, só tivemos a ganhar com isso. Belíssima música!
Agora fala um pouco do "Frevo Agoniado". Como é possível de se ter um
frevo tão frenético assim?
Um frevo diferente do Ítalo, ligeiro que nem alegria de
pobre, que passa por uma calmaria no meio. Foi composto como um tipo
de desafio do Ítalo para o Luiz, para ver como se saia com
um andamento rápido desse. Gravada de um "lapada" só,
valeu o desafio. Lembrei de uma das mil histórias do Luizinho
Duarte: "Estão pedindo marcha rancho! Gritava o tocador
de surdo no baile de carnaval do Clube do Náutico depois de
3 horas de bum-bum! Braço já dormente de tanta marcha,
o povo a mil pulos, imaginamos a surpresa do baterista ao ouvir o
tocador de surdo: "Estão pedindo marcha rancho?"
E sobre este samba "Oversea"?
É um samba partido alto composto no final do século
passado. Pertence à primeira fase de composições
do Luizinho. Flauta e piano dobram a melodia enquanto baixo e bateria
são puro suingue de samba no acompanhamento.
E voltamos então a outra balada: "Momento Difícil".
Dos momentos difíceis, diz o poeta, surgem as coisas mais
belas, como esta balada do Luizinho. Lirismo, dinâmica e delicadeza
são o forte desta música. O piano anuncia em poucas
notas o ambiente e começa sozinho a expor o tema, depois entram
baixo e bateria e por fim a flauta, triste, passarinho de asa quebrada
quer voar, e voa.
Agora
lembro que durante o concerto, tivemos uma pequena chuva. Foi então mais
do que apropriado que a Marimbanda acolhesse a chuva daquela noite com "Choro
na Chuva". Foi aí que tivemos a oportunidade de ver a Marimbanda
em formação diferente.
A primeira parte do choro (Si menor) estava sendo concluída
quando a mulher gritou: "Luizinho, os pães"! Estava
chovendo, mesmo assim encarou a chuva e foi à padaria. Na
ida concluiu o "B" (Fá maior), e na volta a parte "C" (Ré maior).
No disco o autor toca violão de 7 cordas, tamborim, pandeiro
e bateria. (Maravilhas da tecnologia.) É bom ver um choro
suingado com baixo e bateria apesar da dificuldade de mixar baixo
e sete cordas, para não "embolar".
E o resultado final foi ótimo. No show ao vivo, a apresentação foi
tão boa quanto a do estúdio, só que o Luizinho tocou apenas pandeiro.
Também ouvi falar sobre a inspiração de "Panorâmica", esta balada muito
bonita do Ítalo Almeida. Conta pra gente a estória.
A faixa foi escrita em memória do Tio Ivan do Ítalo.
Final de tarde, descendo a serra de Guaramiranga, a lembrança do tio e
a inspiração nos trouxeram esta "panorâmica". É uma
das grandes músicas do cd. A descobrimos durante as gravações,
o que acentua a alegria de gravar um tema tão lindo. Antes do tema fiz
um monte de efeitos com as flautas: percussões com as chaves, percussões
com a língua, whispertones, harmônicos, num clima de música
contemporânea. O Ítalo toca piano e acordeon.
E chegamos assim ao final do cd, com a energia do "Frevo
na Sopa".
Como no "Choro na Chuva", ao compor esta música,
o grito cotidiano: "Luizinho vem tomar tua sopa". O jeito
foi terminar este frevo entre uma colherada e outra.
Heriberto, obrigado por conversar com os leitores de MB sobre este excelente
trabalho. Aí está Tente Descobrir. Você ainda
pode ver fotos do show aqui.
E.L.
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