Jobim está em casa outra vez.
Um dos melhores discos de 2002, Casa, tem agora sua continuação
que está fadada a deixar qualquer ouvinte estarrecido de prazer. A
Day in New York retoma onde Casa nos deixou e nos leva de volta
a uma visita ao mundo musical de Jobim nas mãos destes talentosos músicos.
O trio original Jaques Morelenbaum (cello), Paula
Morelenbaum (vocais) e Ryuichi Sakamoto
(piano) são acrescidos por Luiz Brasil (violão) e Marcelo Costa (percussão).
Este novo quinteto é o que ouvimos nesta gravação.
A idéia deste álbum foi muito simples. Os músicos se sentiram impulsionados
pela adrenalina dos shows por todo o mundo e decidiram que parar tudo
agora seria um crime. Assim sendo, depois da última apresentação da
turnê mundial em Nova Iorque, o quinteto se encontrou mais uma vez
no dia seguinte, 7 de novembro de 2002, no famoso estúdio The Hit Factory
em Nova Iorque. Lá eles registraram as emoções das canções deste cd.
O resultado é A Day in New York, tudo que Casa foi
e muito mais. Aos que duvidam de uma gravação resultante de uma turnê,
posso assegurar que este cd não se trata de uma repetição de canções,
exceto por duas gravações. Assim sendo, você está de fato com um novo
produto.
Falar
das canções de Jobim e sobre estes músicos parece redundante e desnecessário,
mas alguns detalhes devem ser mencionados mais cuidadosamente. As primeiras
notas que você vai ouvir vem da introdução que Ryuichi dá para "Desafinado".
O ritmo é um pouco mais rápido do que estamos habituados a ouvir para
esta música, mas aqui é um prazer ouvir esta diferença. A primeira
canção fora do repertório de Jobim é nada mais nada menos do que o
clássico da bossa nova "Bim Bom", escrita pelo papa do gênero, João
Gilberto. A música é simples e mantém o mesmo ritmo da primeira faixa
do cd. A segunda faixa não jobiniana é influenciada pela bossa nova
e foi escrita por Caetano Veloso: "Coração Vagabundo". Aqui encontramos
talvez a melhor apresentação desta canção até hoje. A introdução e
final apresenta um trecho do "Prelúdio Nº 3 (Prelúdio da Solidão)"
de Heitor Villa-Lobos. Já é sabido sobre a influência de Villa-Lobos
na música de Jobim, mas ver esta vinheta junta a uma canção de Caetano
Veloso fecha o círculo. A voz de Paula está belíssima e evoca uma tristeza
muito ligada à letra e ao mesmo tempo dá aos músicos toda a liberdade
de brilharem individualmente. Não é exagero dizer aqui que o solo de
Ryuichi é em essência puro Jobim: os acordes, as notas individuais,
tudo. Se Jobim tivesse gravado esta música quando vivo, esta seria
a gravação que teríamos ouvido, acredito. A última faixa não escrita
por Jobim é uma excelente surpresa. "Tango" foi escrita pelo próprio
Ryuichi e tem letra em português de Paula Morelenbaum. Contrário do
que o título nos leva a crer, a música é mesmo bossa nova e em sua
tristeza descreve a dor que um homem sente após deixar sua terra natal
e seu amor.
A Day in New York é às vezes pensativo, às vezes melancólico e
às vezes brincalhão (basta ouvir o final do arranjo em "Samba do Avião").
O disco todo é magnífico. E saber que foi feito em apenas um dia! Devemos
lembrar que isto não se trata de fato comum e que só pode mesmo ser
atingido por músicos de rara categoria.
Fique à vontade. Você está
em casa novamente com Morenlenbaum2/Sakamoto.

Egídio Leitão