![]() |
![]() |
In-Depth Reviews since september
7, 2002 |
|
|
|
![]() |
Um tributo aberto ao ícone João Gilberto, Amorosa é o mais recente laçamento de Rosa Passos. O álbum vem nas trilhas do aclamado trabalho feito em 2003 com Ron Carter (Entre Amigos). Rosa fez uma escolha meticulosa do repertório de João Gilberto e adicionou até mesmo uma faixa especial dedicada especialmente a ele: "Essa É Pr'o João". O título já diz tudo, obviamente, sobre este grande lançamento. Tocando e cantando profissionalmente desde os idos de 1960, Rosa Passos (natural de Salvador, tendo nascido em 1952) nunca escondeu sua afeição e admiração por João Gilberto, o nome sinônimo com a Bossa Nova no Brasil e no mundo todo. Em 1978, ela lançaria seu primeiro álbum, Recriação, com canções originais escritas por ela e seu colaborador mais constante, Fernando de Oliveira. De lá para cá, sua carreira subiu ao estrelato com os trabalhos seguintes, tais como Curare (1991), Festa (1993), Pano pra Manga (1996) assim também com discos inteiramente dedicados às músicas de Ary Barroso, Dorival Caymmi e Antônio Carlos Jobim. Mais recentemente ela trabalhou com Ron Carter e Yo-Yo Ma atingindo assim um público muito maior fora do Brasil. O seu gosto impecável ao gravar o melhor do cancioneiro brasileiro está estampado em todos os seus discos já lançados.
Quatro dentre as doze faixas aqui foram gravadas por João Gilberto no seu antológico clássico de 1977, Amoroso: "Wave", "Bésame Mucho", "Retrato em Branco e Preto" e "'S Wonderful". (Amoroso de João Gilberto está disponível junto com Brasil no 2-em-1 que saiu pela Warner 9 45165-2.) Embora aqui tenhamos o uso de cordas em algumas das mesmas canções gravadas pelo João, Rosa não procurou imitar logicamente os arranjos majestosos de Claus Ogerman. Em vez disso, ela fez a opção inteligente de criar novos arranjos, e eles são tão bonitos quanto os que João interpretou. Quanto às demais faixas, elas também foram gravadas pelo João em vários de seus outros lançamentos com a exceção da canção que Rosa escreveu com Arnoldo Medeiros intitulada "Essa É Pr'o João", um dedicação pessoal de Rosa para João. A música é um tributo carinhoso cheio de images de João Gilberto, sua música e a Bossa Nova (veja a letra abaixo). Para se fazer jus às interpretações aqui dadas por Rosa é uma tarefa árdua. Ela se entrega em corpo e alma em cada faixa que interpreta. Os músicos também não falham em nada. O fraseado de Rosa continua ímpar. Em diversas ocasiões ela põe todo o seu sentimento em apenas uma só sílaba dando assim ao ouvinte a emoção completa. Este é o caso, por exemplo, em "Retrato em Branco e Preto". No último verso da letra de Chico Buarque, Rosa põe na palavra "coração" toda a dor que os amantes sentem. A sua dicção nesta palavra é super poderosa. O mesmo ocorre em outras passagens da canção, como é o caso de "lembranças do passado" e tantas outras frases. Lógico que em outros momentos Rosa se mostra brincalhonha e muito feliz. "Pra Que Discutir com Madame", "O Pato" e "Eu Sambo Mesmo" refletem a energia que aparece de sua pequena grande voz. O mesmo pode se ser dito com o material de língua estrangeira interpretado aqui. "Bésame Mucho", em toda sua quietude, é passionalmente ardente até o último suspiro. Quanto a "'S Wonderful", o piano maleável de Helio Alves sobe às alturas e é paradisíaco. E quando chegamos ao dueto com Henri Salvador em "Que Rest-t-il de nos Amours", Rosa esbanja em interpretação atingindo mesmo um ápice que nem mesmo seu ídolo conseguiu com sua própria gravação para esta versão de Ronaldo Bastos se misturando brilhantemente com a letra original em francês. O casamento das línguas é perfeito e em diversas passagens é quase impossível se dizer quando temos francês ou português. Nunca estas duas línguas soaram tão belas juntas desde a "Joana Francesa" de Chico Buarque. Amorosa comprova que pouco é muito mais. Voz e letra são o foco aqui. A instrumentação e arranjos aumentam a beleza da música. Nada mais é preciso. Para ouvir trechos das faixas e ver um pequeno vídeo de Amorosa, basta ir até o site que a Sony Classical fez para Rosa Passos.
|